quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A Executiva no Céu

Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu
uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou.
Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal.

Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de
pessoas.Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando
despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva
bem-sucedida abordou um dos passantes:

- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu
escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que
fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe
A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que
nós estamos?
- No céu.
- No céu?...
- É.
- Tipo assim... o céu, CÉU...! Aquele com querubins
voando e coisas do gênero?
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo
permanente.

Apesar das óbvias evidências nenhuma poluição, todo
mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva
bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na
curva.

Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por
meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que
aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana
ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para
assumir a posição de presidente do conselho de administração da
empresa.

E foi aí que o interlocutor sugeriu:

- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o
síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem
secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim?
(...)
- Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua
frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo,
estava o próprio Pedro.

Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de
approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:

- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma
executiva bem-sucedida e...


- Executiva... Que palavra estranha. De que século
você veio?

- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o
termo 'executiva'?


- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight.
A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda
em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante
currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma
posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na
organização.

- Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria
de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só
batendo papo e andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há
enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.

- É mesmo?

- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por
exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe
quem é quem aqui, e quem faz o quê?

- Ah, não sabemos.


- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E
dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar
virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso
rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e
avaliação de performance.

- Que interessante...


- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma
hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de
grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.

- !!!...???...!!!...???...!!!

- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada
para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e
estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando,
dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele
existe, certo?

- Sobre todas as coisas.

- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um
downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais
de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento
de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado
telestérico, por exemplo, me parece extremamente atrativo.

- Incrível!

- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois
teremos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de
remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis
dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora
falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar
comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um
Turnaround radical.

- Impressionante!

- Isso significa que podemos partir para a
implementação?

- Não. Significa que você terá um futuro brilhante...
se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de
descrever, exatamente, como funciona o Inferno...

Max Gehringer
(Revista Exame)