segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O divórcio, os medos e o começar de novo


Ana Leandro recebeu vários testemunhos no seu blog Diário de uma divorciada. Com base na sua experiência pessoal e no que ficou a conhecer escreveu para o PortugalDiário sobre o tema


O divórcio, para mim, não significou o rasgar da folha da vida a meio, mas antes um virar de páginas onde, todos os dias, novas folhas em branco me vão surgindo e onde vou registando as minhas emoções, descobertas e reflexões; partilhando dificuldades, alegrias e experiências. Em suma, onde vou desbravando caminho numa sociedade onde o divórcio é ainda um assunto tabu. Para além de uma terapia, o «Diário de uma divorciada» é igualmente um ponto de encontro com os meus colegas de estado civil que muito me vão ensinando também.
Tradicionalmente, nós, as mulheres, sempre fomos preparadas para o casamento e, muito embora essa preparação seja, actualmente, completamente desadequada e até um pouco machista, a verdade é que houve uma preparação, ao passo que o «The End» para os nossos educadores começava (e começa) no dia em que se colocava um pé no altar. Para o divórcio nunca houve preparação nem preparativos. Enquanto o casamento é motivo de festa, o divórcio é encarado socialmente como um acontecimento triste e lamentável (será!?).
Os caminhos do Divórcio
Os motivos que conduzem ao divórcio estão intimamente ligados às razões que levam ao casamento. Casar, embora possa não parecer, ainda é o que era. Salvo raras excepções, quando uma pessoa decide «dar o nó» acredita convictamente no «até-que-a-morte-os-separe» e o seu objectivo principal, no que concerne àquela união, continua a ser a busca da felicidade. A questão é que a felicidade é um conceito por demais relativo e abstracto que, quando aplicado ao matrimónio, traduz, frequentemente, expectativas irrealistas.
Os primeiros sinais de desencanto surgem com as incompatibilidades de carácter que a convivência diária vai revelando e acentuando; quando há um desequilíbrio na divisão das tarefas (um motivo de peso e relativamente recente, que há duas ou três décadas não faria muito sentido e que tem vindo a ganhar terreno) ou quando a rotina vai minando todo o espaço da vida do casal. O dinheiro, ou a falta dele, é também um factor de grande tensão. Tudo somado, gera-se um desconforto que vai abrindo caminho a um gradual afastamento de, pelo menos, um dos membros do casal. Os verdadeiros problemas começam quando a falta de diálogo ou as discussões constantes são a principal característica da união.
Apesar do cenário desfavorável, muitos casais continuam a coabitar, quer pelos filhos, por motivos económicos ou quer por pura dependência emocional. A não ser que o ambiente seja francamente insuportável, o lar, símbolo da união familiar, lá vai resistindo a ventos e tempestades até ao dia em que a estrutura acaba por ceder.
Muitas vezes a separação é decidida unilateralmente, não deixando por isso de ser uma situação difícil tanto para que parte como para quem fica. O fim de um casamento provoca em nós um sentimento de perda semelhante à morte de um familiar ou de alguém que nos é querido.
Os primeiros tempos do pós-divórcio são sempre bastante dolorosos mas com maturidade e um acompanhamento adequado, a sensação de pesar acaba por ser ultrapassada. Por norma, é assim que sucede. Porém, após um divórcio, é também frequente uma das partes reclamar para si o papel de vítima, tornando o processo em tudo complicado tanto para si como para as restantes partes envolvidas. Quando o sentimento de perda é associado à rejeição, uma pessoa com mau perder investe todas as suas atitudes numa espécie de esquema de vingança, chegando ao ponto de voltar a casar só para não se sentir por baixo ou a usar os próprios filhos, quando os há, como arma de retaliação.
Contrariando muitas ideias feitas, é possível uma criança ter um desenvolvimento feliz e harmonioso sem ter os dois progenitores a dormir na mesma cama. O papel de divorciado(a) não é, de todo, incompatível com o papel de pai ou mãe (ou pelo menos,não deveria ser). Não obstante, os tribunais estão a abarrotar de processos desencadeados por pais pseudo-heróis a lutar pelos seus filhos, enquanto os mesmos vão crescendo com a sensação de culpa por serem um motivo de discórdia.
Uma criança não precisa que os pais se matem no ringue por sua causa, um pai ou uma mãe só tem uma coisa que provar a um filho: é provar que o amam incondicionalmente e que estará sempre a seu lado para o apoiar e proteger, independentemente das circunstâncias. É lamentável ver os interesses de alguns pais serem colocados acima do interesse dos próprios filhos menores, mas acontece.
Começar de novo
Depois de uma separação, recomeçar a vida ao lado de outrém nem sempre é tarefa simples. Das duas, uma: ou se cai nos braços da primeira pessoa que nos oferece apoio ou tem que se esperar um bom período de tempo até que se resolva eleger um novo par.
Encontrar um novo alguém para partilhar os dias é um pouco como procurar um lugar no estacionamento de um hipermercado: passamos por lugares vagos, mas como são distantes da porta de entrada principal, acabamos por andar às voltas, a ver se temos a sorte de arranjar um mais próximo. Por vezes, acabamos mesmo por desistir e irmo-nos embora, o que é errado, porque afinal, se fomos até ali é porque tínhamos necessidade de ali ir. Ninguém deve desistir do seu lugar no estacionamento. Por vezes demora-se um pouco, mas um divórcio não deve ser motivo para se desistir do amor.
É vulgar passar-se por uma fase em que se salta de romance em romance que acabam por nunca dar certo porque, depois de um divórcio, uma pessoa torna-se bastante mais exigente ou bastante mais apreensiva e o simples acto de tentar pode ser desgastante e é por isso que muitos se rendem à solidão.
A solidão é uma falsa amiga porque vicia e, de orgulhosamente só a orgulhosamente arrogante vai uma distância muito curta, por isso, cuidado!
Ideal, ideal, seria a pessoa manter-se uns tempos a sós para digerir bem a tentativa abortada, aproveitar para aprofundar o auto-conhecimento e investir em projectos noutras áreas que a pudessem instigar a seguir em frente, mas sem nunca, mas nunca, fechar a porta à possibilidade de um novo amor. Contudo, o essencial é que saibamos fazermo-nos respeitar pelas nossas opções e não alimentar preconceitos respeitantes ao estado civil. Afinal, o mundo não acaba por causa de um divórcio e a nossa vida também não.
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