quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Segundo o Millor, "livre pensar é só pensar" ...

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De espécie e indivíduos.

Existe muita discussão, no mundo, entre os que crêem que o homem é resultado de uma lenta evolução, iniciada de um amino-ácido, passando por bactéria, peixe, primata e, finalmente, homo sapiens, e aqueles que se acreditam feitos e acabados, em um momento mágico, à imagem e semelhança de seu criador.

Os segundos, para justificar que a criatura é imperfeita, apesar da imagem, desfiam toda sorte de explicações para justificar uma imperfeição impossível de ser imputada ao criador.
Os primeiros, nos quais me incluo, não podem deixar de crer que a imperfeição é regra. Sem ela, o amino-ácido, ao se reproduzir, nunca chegaria a bactéria, que nunca chegaria a peixe e, assim por diante, até o imperfeito homo-sapiens.

A regra é sobreviver e passar para a descendência as imperfeições que "deram certo", do ponto de vista da sobrevivência. Neste quesito, os segundos (de fé judaico-cristã, pelo menos) usam a frase "crescei e multiplicai-vos". Concordamos, enfim!
A natureza está cheia de exemplos de organismos que agem segundo este inexorável primeiro mandamento. Porque não nós, também?
Deixados à sua lógica individual, os seres humanos são indivíduos que obedecerão à primeira lei.
Essa mesma lei nos fez gregários, para driblar nossa debilidade individual pela força de uma coletividade. É a segunda lei, criada para assegurar o cumprimento da primeira.
Equilibrar a primeira e segunda leis é função da política, das instituições e, como executor e coordenador, do Estado.
O que me espanta é que a humanidade não percebeu, como coletivo e, por consequência, como átomo, que leis que funcionam não são aquelas que proíbem algo, mas sim aquelas que facilitam a sobrevivência.
Com isso quero dizer que a melhor maneira de fazer com que a água corra em uma determinada direção é cavar um canal.
Para que os indivíduos decidam por uma conduta ética e cooperativa, ela deve ser mais recompensadora do que outra conduta, egoísta e predatória.
Quando digo que "as coisas não funcionam porque não foram feitas para funcionar" quero dizer que o objetivo declarado – transporte público, por exemplo – não é o objetivo real – transportar público – mas algum(ns) outro objetivo individual, inconfessável, resultado da primeira lei e usando a segunda como a perfeita "desculpa".
Toda essa análise deixa de levar em conta o espírito humano, capaz de desobedecer a primeira, a segunda lei e quantas mais existirem, quando animado de força e determinação espirituais.
A evolução máxima do homem se dará quando ocorrer a transcendência do indivíduo e cada um se considerar uma parte da espécie, substituindo, na primeira lei, o EU pelo NÓS.
Não digam que é utopia, pois não faltam exemplos de que esta mutação final, última derivada da imperfeição inicial, já está em curso.
Exemplos de dedicação individual a causas coletivas estão cada vez mais evidentes e o refinamento da cultura (não falo de tecnologia, mas de consciência) cada vez mais torna esta escolha mais importante do que a individual.
Só espero que não provoquemos a auto-extinção da espécie antes disso, e não pereçamos ao chegar à proverbial praia.

(José Carlos G. Ribeiro)