sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mostra de cinema de São Paulo


O mundo filmado


Em 32 anos de existência, a Mostra de Cinema de São Paulo criou, entre parcela do público, um saudável hábito: o de visitar o mundo por meio de janelas e olhares que o circuito comercial desconhece. Entre 17 e 30 de outubro, estima-se que 200 mil espectadores (foi esse o número de 2007) circulem por vinte salas abertas para produções vindas de 75 países. Pelas telas correrão imagens capazes de nos fazer entender a quantas anda o mundo.

É que, para além da aventura cinematográfica, a Mostra oferece um mosaico dos tempos em que vivemos. Sintomático dessa vocação é o conjunto de filmes alinhados à questão da miséria que, não à toa, estão programados principalmente para o fim de semana do dia 17, o mesmo da mobilização mundial Stand Up and Take Action Against Poverty, que procura conscientizar para o tema por meio de um conjunto de ações.

Há títulos como O Fim da Pobreza, premiado na semana da crítica, em Cannes, O Que Estamos Fazendo Aqui, que percorre o continente africano, o coletivo Os Invisíveis, com um episódio de Wim Wenders (que virá a São Paulo), Garapa, de José Padilha, e até um documentário narrado e roteirizado por Madonna, Eu Sou Porque Nós Somos, sobre o Malaui.

Enquanto o pop se aproxima da pobreza por meio das imagens, diretores de antiga vocação política seguem investigando grandes episódios históricos a partir de seus cantos mais escondidos. Em Procedimento Operacional Padrão, por exemplo, o documentarista Errol Morris debruça-se sobre os doze retratos da prisão de Abu Ghraib, em Bagdá, que tiveram forte efeito sobre os EUA e a Guerra do Iraque. Também de pegada política, no sentido mais amplo do termo, são Terra Vermelha, co-produção entre Brasil e Itália, sobre os índios Guarani-Kaiowá, que causou burburinho no Festival de Veneza, e Gomorra, a respeito da máfia napolitana.

A mostra está repleta de iguarias outras. Há desde as retrospectivas de Ingmar Bergman (1918-2007) e do japonês Kihachi Okamoto (1923-2005) até a exibição, em cópias restauradas, da gigante série Berlin Alexanderplatz (1980), de Rainer Fassbinder (1945-1982), e de O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola. Na ala contemporânea, são especialmente apetitosas a homenagem ao argentino Pablo Trapero, de O Outro Lado da Lei (2002) e Família Rodante (2004), e a lista engendrada por Wenders, descobridor de jovens diretores.

Seguindo a tradição, as novas obras de cineastas sempre aguardados, como Woody Allen, os irmãos Coen e Steven Soderberg, também terão na mostra um tira-gosto. Como na lista de 454 títulos, curtas-metragens incluídos, há de tudo para todos os gostos, o mais recomendável é entrar no site http://www.mostra.org e, feito turista com guia de viagens à mão, escolher os lugares que desejamos visitar.

(Ana Paula Souza)