domingo, 26 de outubro de 2008

Guernica antitabagista


No princípio - a coisa começou a pegar no final de 2003 -, eram fragmentos de pernas amputadas, pulmões carbonizados, gengivas carcomidas, fetos em vidro de maionese, horrores atribuídos ao cigarro que a guerra contra os fumantes expôs na propaganda oficial como uma Guernica antitabagista. Cinco anos depois, muito provavelmente porque não há registro de fumante que deixou de sê-lo por causa da imagem gravada no maço que carrega no bolso, o Ministério da Saúde resolveu radicalizar o combate.

Seremos agora bombardeados com portraits de cadáveres necropsiados, fetos apodrecidos misturados a bitucas, faces necrosadas, jovens escornados, corações feitos de cinzeiro e - o que faz o mais célebre quadro de Picasso parecer ilustração de livro infantil -, a visão surrealista de uma cabeça arrebentada a golpes de machado para ilustrar o risco de derrame cerebral em fumantes. Parece sacrilégio se chocar com essas coisas no embalo do Dia Mundial Sem Tabaco, comemorado ontem, mas falo com a consciência tranqüila dos não-fumantes de bem com a vida.

As novas imagens de advertência do Ministério da Saúde são de um terrorismo desnecessário, em especial com quem largou o vício,ou nunca o teve,e será inevitavelmente exposto ao horror da propaganda oficial. Bastará entrar num bar ou conviver com um fumante (todo mundo conhece um) para ser assombrado por alegorias da morte, da mutilação, do sofrimento. Impotência sexual, no caso, é pinto. Se a campanha chegar à TV, tirem as crianças da sala.

Pela lógica do raciocínio antitabagista, toda embalagem de McLanche Feliz seria decorada com tenebrosas imagens de carótidas e coronárias entupidas de gordura gosmenta e amarelada. Os carros sairiam de fábrica com respingos de sangue no painel e no estofado para lembrar o risco de traumatismo craniano e afundamento de tórax ao volante. As bolachas que contabilizam o consumo de chope nos bares chegariam à mesa do freguês ilustradas com detalhes da ressonância magnética de um fígado destruído pela cirrose. Imagino que a imagem dê bem a idéia do que a bebida é capaz.

Talvez seja mesmo conveniente alertar a população para toda sorte de riscos que corremos diariamente. Por exemplo: praticar esportes pode causar estiramento muscular; respirar em São Paulo é uma temeridade - mergulhar no Rio de Janeiro, outra; o trabalho estressa; roubar pode dar cadeia; andar na rua é se expor à violência, viajar de avião é coisa de quem não tem amor à vida... Para cada uma dessas advertências é possível produzir uma infinidade de imagens assustadoras.

Por que, então, reservar aos fumantes a exclusividade do tratamento de choque? Não conheço um só amante do cigarro que não faça de tudo para interromper essa relação avassaladora que o consome. Não existe tabagista que se gabe do apego à nicotina. Essa gente não precisa de susto. Tenham, pois, piedade do pessoal.


Tutty Vasques - O Estado de S.Paulo